Os leitores
Imaginários
Temendo ser um erradio como o Elisiário de Machado de Assis, estou começando meu primeiro romance pelo fim. O começo e o miolo que se virem depois para aparecer-me e preencher o restante. Nada apoteótico, o fim envolve um cachorro. Não é o Quincas Borba, que ilustra talvez o melhor desfecho que já li num romance; não é o bezerro com cara de cão do Grande sertão, provavelmente a melhor abertura que já li num romance. O cachorro será, na verdade, uma cachorra, que tampouco é a Baleia, embora viva igualmente na miséria; e, com sorte a minha e generosidade das musas, estará ganindo no bololô dessa cachorrada toda. A carrocinha que se dane!
— Aqui ele estragou — dirão um e outro que porventura lerem até o fim, ou pularem as centenas de páginas e lerem apenas as últimas.
Outros, no entanto, vão rir, eu acho, seja para si mesmos ou para que os ouçam. Aos que trancarem o riso, pedirei apenas o cuidado de não acabarem também como o Elisiário, que começava romances, dramas, poemas e nunca os terminava, privando tudo do público. Aos que soltarem as gargalhadas, rogo decoro, por favor.
Bem se vê nos três parágrafos acima que, tanto quanto a história em si, e como contá-la, os leitores povoam o meu imaginário. Prevejo reações, recepções; antevejo a postura daqueles com quem falo enquanto escrevo. Mari está confortável em sua chaise longue, presente dos pais quando a prestaram visita dalém-mar. Encheu uma taça de vinho para acompanhar a leitura; a bebida lhe desce quadrada, e ela não desvenda por quê, já que se trata de um Barbaresco (presente do noivo, que lhe explicou a qualidade). Não entende que a história harmoniza muito melhor com cachaça ou café. Segue virando páginas, mas já se perdeu, primeiro porque uma frase não lhe ficou clara, resultado de não entender duas palavras cujo significado teve preguiça de consultar no dicionário, e daí descambou; segundo porque postou uma fotografia da capa em rede social e de cinco em cinco minutos abre o aplicativo para conferir quem a visualizou, quem a curtiu, quem lhe enviou meme não relacionado ao livro.
Joana lê no ônibus e aprecia palavra por palavra, até mesmo as preposições. Enxerga-as com a mente, e cada letra assume um formato diferente. Umas engrossam, outras espicham, outras ainda brilham, ofuscam-se, metamorfoseiam-se como que vivas. Quem senta ao lado de Joana, pede licença por educação, e ela, absorta, não dá bola e parece mal-educada. Está tão compenetrada que as letras mentais causam uma confusão nas letras impressas, e ela fica tonta por um instante. Precisa fechar os olhos, respirar fundo, e só aí voltar ao papel. Pronto, tudo se alinhou e ela consegue seguir leitura. Irá, ao final, depois de ler sobre a cachorra, escrever uma resenha no Substack. Não ganhará muita interação, coisa de umas três ou quatro curtidas, uma delas a minha, o que para ela estará ótimo. Tão ótimo quanto é sua avaliação do livro. Obrigado, Joana, adorei seu texto!
Na livraria, João interessou-se pelo título, chamativo do jeito que a equipe de arte o deixou. Apanhou o livro da bancada, leu o primeiro parágrafo da orelha, começou a folhear, sem sequer ver que na segunda orelha a assinatura do texto é de um escritor de quem ele gosta bastante; leu o primeiro parágrafo também do meu texto, do romance em si, e não gostou. Achou bobo, presunçoso, mal escrito, fez careta de indiferença, e agora repõe o exemplar na bancada, um pouco torto, empurrando em efeito dominó os livros ao lado. João não fez isso só com o meu; fez com mais uns seis ou sete que pegou, e podemos apelidá-lo, se quisermos, de Elisiário, um erradio.
Alexandre é um editor que resolveu abrir o e-mail para avaliar o manuscrito. Sente que perdeu tempo após sapeá-lo de fio a pavio, mas pulando inúmeras páginas. Ao fim deixou passar praticamente tudo, lendo somente mesmo o fio e o pavio, nada mais. Jamais respondeu o e-mail.
Sávio, pelo contrário, decidiu editá-lo e publicá-lo. Para isso teve de convencer dois superiores, que não dificultaram; sabiam do faro e da competência de seu empregado. Tão competente que me deu um trabalhão. Me questionou, me criticou, me fez reescrever a bagaça inteira. Hoje reconheço que o trabalho foi para o melhor, e sou-lhe grato por toda a vida. Na época da edição, eu quis matá-lo. De verdade, matá-lo. Pensei em acertá-lo na cabeça com um machado, elaborei o plano por meses seguidos, me achando superior e tudo, cheio das teorias, mas não levei a cabo o crime, por afinal ser eu menos um Raskolnikov que um Elisiário. No e-mail em que ele me enviou no arquivo anexo a prova final, escreveu: Parabéns, Luis!!!
Brasil leu o romance para resenhá-lo na imprensa. “Leu” é maneira de falar. Fez aquela leitura, como dizem, “em diagonal”. Eu a chamo de safada. Mas está valendo, porque foi positiva, apesar de ter errado o nome de um personagem e também entendido o contrário de uma cena importante do enredo. Deu o máximo de estrelinhas que permite o jornal, e convenceu mais duas pessoas, que costumam passear à banca nos sábados, a ler o livro. Uma delas é a aposentada Eugênia, que se diverte muito com os trechos em que há tortura, e errada ela não está, pois a minha ideia é mesmo escrever de tal modo que a violência fique no entremeio de tragédia e comédia. Ela deve rir de nervoso, se bem pressinto. O outro é outro João, o país está cheio de Joãos. E outro aposentado. Ele lê com os óculos de farmácia no limite da ponta do nariz. Às vezes caem, mas geralmente quando isso acontece João já está dormindo, não interfere na leitura. João terminou o romance e, em linhas gerais, até que gostou. Não conversa com ninguém sobre o que lê, com exceção de Salsicha, seu Dachshund. Seus filhos discutem sobre um carro, sobre um time, sobre um caso; os netos estão trabalhando para crescer. Sua esposa morreu tem uma década.



WHAT WILL HAROLD THINK ?